Início Rotas pelo Mundo Brasileiros na Estrada Cruzando a Argentina de Leste à Oeste pela segunda vez

Cruzando a Argentina de Leste à Oeste pela segunda vez

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Como sair do Fim do Mundo?

           Quem já esteve em Ushuaia sabe que deixar aquele lugar é realmente difícil. Há tanto para se fazer, tanto para se conhecer, e nós, brasileiros nos sentimentos tão desafiados por um clima tão “extremo” em relação ao nosso, que até certo ponto chega a ser momentaneamente viciante imaginar que se está na última cidade do continente, e que ali pertinho, está a Antártida. Depois de ficar um mês aproveitando as belezas do inverno no extremo sul do continente, senti que era hora de partir. Mas imagine você, que eu estava já há um mês sem pedalar, todas as fibras do meu corpo gritando para que eu subisse na bicicleta carregada e partisse sem olhar pra trás. Avisei então ao anfitrião do couchsurfing sobre meus planos, e depois de uma despedida regada à vinho argentino, fomos surpreendidos com uma nevasca mesclada com chuva, típica do inverno fueguino. Ramiro, o anfitrião, recomendou que ficasse, mas eu precisava pedalar, estar em movimento novamente.

           As ruas estavam todas completamente congeladas. Não como eu já havia presenciado antes, parece que havia se formado uma camada espessa de gelo sobre as ruas da cidade, que justificava os carros patinarem sem corrente. Me despedi e na primeira esquina os pneus resvalaram e fui ao chão, pela primeira, das inúmeras vezes que cairia para conseguir chegar à saída da cidade. Mas persisti.

Saída de Ushuaia pós nevasca

 

            Saí da cidade, mas quando o relevo começava a ficar contra mim, caí novamente, mas dessa vez no meio da rodovia, movimentada e congelada. Era um sinal para que eu respeitasse a natureza e encontrasse outra forma de sair dali. Após ser avisado por um casal de brasileiros, que regressava contando que nem com o carro haviam conseguido deixar a cidade, retornei ao posto policial que há junto ao portal de entrada da cidade, explicar a situação e tentar que me ajudassem a conseguir uma carona até Tolhuin na famosa Padaria La Union, já que sabia que poderia dormir lá, e prosseguir no dia seguinte.

            Chegando à Padaria, conheci um cicloviajante japonês, na estrada há quatro anos, mas cuja comunicação estava um pouco difícil por seu inglês e espanhol bastante básicos.

            Aproveitei para depois da saída da cidade escapar longos e sofridos quilômetros para conhecer Cabo San Pablo, onde se encontra o famoso Navio Desdêmona, encalhado há décadas naquela gélida praia patagônica.

Navio Desdêmona – Encalhdo na praia de Cabo San Pablo

 

            Pedalar pelo mesmo caminho é realmente difícil, e segui por alguns dias até chegar assim até me aproximar do Estreito de Magalhães, em sua outra ponta de travessia. Lá, consegui chegar ao continente amarrado a bicicleta à traseira de um veículo, e assim não pagar o valor cobrado.

 

Mudança de Planos

           De volta ao semiárido da Província de Santa Cruz, a pedalada foi bastante prazerosa pelos dias que se seguiram até Rio Gallegos. Lá, me hospedei novamente com o casal de argentinos que estava comigo em Ushuaia. Fiquei lá cerca de três semanas. Meus planos originais eram de seguir novamente para a Ruta 40, chegar a El Chaltén, tomar o barco para Villa O’Higgins e de lá pedalar pela Carretera Austral, já no Chile. Porém, uma tentativa de golpe acabou mudando meus planos, e até que me fosse reembolsado o valor, achei mais prudente chegar o mais rápido possível até a próxima cidade “grande” para fazer dinheiro, e só depois ir para o Chile. Perderia uma parte da Carretera Austral, mas não correria o risco de ficar sem dinheiro em mãos, caso o pedido de reembolso me fosse negado.

           Consegui então o contato de Fernando, um caminhoneiro famoso entre os mochileiros por sempre levar gente de carona, chegando ao incrível número de 30 caroneiros simultaneamente.

            Surpreendentemente a carona foi mais divertida do que o esperado. Eu mesmo não gosto da ideia, mas o sujeito era tão simpático que valeu a viagem. Conversamos e rimos durante os mais de seiscentos quilômetros, além de ter tido a oportunidade de “pilotar” pela primeira vez na vida uma carreta carregada. Cheguei assim à Comodoro Rivadavia. A cidade não é exatamente turística, mas as pessoas de lá são realmente legais, chegando ao ponto de darem uma festa em comemoração ao meu aniversário.

            Após esses dias lá, estava de volta à estrada! O vento constante me jogava para dentro e fora da pista, como era esperado nesta época na Ruta 3. Ao virar em direção à Cordilheira dos Andes pela Ruta 26, comecei a enfrentar um novo desafio: O vento cordilheiriço. É verdade, eu já conhecia os ventos na estrada, mas sempre em regiões onde se acontecesse algo, muitas pessoas te identificariam como um turista e prontamente lhe ajudariam. Já nessa estrada, além do isolamento as pessoas, apesar de simpáticas, expressavam um certo receio, já que esta zona não é muito popular entre os cicloviajantes, especialmente estrangeiros.

Ruta 3 – Trecho Comodoro Rivadavia a Caleta Olivia

 

            Após 4 dias de ventos constantes e intermináveis, cheguei a Perito Moreno, de volta na Ruta 40, onde eu já havia estado alguns meses antes. Dessa vez, encontrei o camping municipal, onde armei a barraca, me banhei, guardei meus pertences e me dirigi ao posto de gasolina da cidade para usar internet. Voltei algumas horas depois, e para minha surpresa, haviam dado início à um comício político no camping, o que tornou minha noite de descanso não muito proveitosa. Nesse período as manifestações chilenas estavam no seu ápice, o que me fez titubear se valeria a pena ou não sair da Argentina nesse momento. Porém, como a Patagônia chilena é composta quase que só de povoados, decidi que valeria a pena

           Em meio a vento, deserto, o passo fronteiriço parecia não chegar nunca. Ao chegar, os oficiais ficaram até felizes e alguém estar entrando no país, dadas as informações muitas vezes exageradas da mídia internacional. Mas a exclusividade de atendimento teve um preço: pediram que eu passasse todos os meus pertences pelo scanner, me fazendo gastar um tempo enorme para reorganizar tudo e dar continuidade à viagem. Como tudo tem um lado bom: pude trocar a água quente da garrafa térmica, e tomar alguns mates enquanto fazia toda parte burocrática da travessia de país.

Ruta 23 à Caminho de Los Antiguos (Argentina)