Início Rotas pelo Mundo Brasileiros na Estrada Estradas Cruzadas #2- El Calafate a Ushuaia

Estradas Cruzadas #2- El Calafate a Ushuaia

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El Calafate foi uma das melhores experiências da viagem. Não só conheci muita gente legal pelo Couchsurfing, como tive um intercâmbio incrível fazendo voluntariado no hostel por um mês, sem falar é claro, do Glaciar Perito Moreno, a ida para El Chalten para fazer o trekking do Fitz Roy, e os “boliches” mais feios da história (Mas isso é história pro livro).

Lá foi onde eu conheci neve de verdade, que me fez sentir criança outra vez. Mas junto com a neve vinha o inverno lembrando que minha ida pra Ushuaia estava mesmo atrasada, e que eu enfrentaria MUITO frio pela frente. Saindo de lá, segui pela 40 e acampei em dois postos da polícia vial, onde recebi uma dica importante: seguir pela “antiga” ruta 40, de rípio, barro, e bastante isolada, mas que me devolveu o sentimento de “aventura”, depois de tantos dias parados e me economizou um dia de viagem. Conheci um casal de estadunidenses que vinha pedalando desde o Alaska. Até pensei em propor acompanha-los até a cidade seguinte, mas eles tinham um ritmo diferente do meu, e datas estipuladas para chegar, o que foge da minha realidade.

A imponência do Glaciar Perito Moreno te gera orgulho por ter chegado lá pedalando, mas te faz se sentir pequeno perante a magnitude da natureza
A imponência do Glaciar Perito Moreno te gera orgulho por ter chegado lá pedalando, mas te faz se sentir pequeno perante a magnitude da natureza

Assim cheguei a 28 de Novembro, uma pequena cidade que vive da extração de carvão na fronteira. Não cheguei a entrar na parte urbana, passei os quatro dias na casa de um couchsurfing tomando vinho, comendo churrasco e organizando as coisas para mudar de país.

Nessa época a neve já dominava completamente o lado argentino, pedalei em direção à fronteira, e até achei engraçado, que ao entrar no lado chileno, toda a nevasca que caía, quase que instantaneamente se tornou chuva no momento em que passei pela cordilheira. Chegando a Puerto Natales fui hospedado por dois hosts, em um fiquei somente uma noite, e segui ao próximo, que é uma lenda entre os viajantes por ter recebido mais de quinhentas pessoas, tendo épocas com mais de trinta pessoas simultaneamente em sua casa. Passei alguns dias, aproveitei para fazer alguns trabalhos para conseguir dinheiro depois de ter me assustado um pouco com os preços no Chile. Aproveitei também para ir conhecer Torres del Paine, mas pelo inverno não pude fazer nenhum dos dois circuitos completos sem um guia, então acabei aproveitando somente o dia no parque.

Com a alta umidade da cidade e o frio, foram dias muito próximos à calefação, trocando experiência com outros viajantes de partes diferentes do mundo, o que foi muito proveitoso. Sair de lá foi tranquilo, apesar da neve, e as paisagens, especialmente do pôr do Sol foram espetaculares.

O pôr do Sol de Puerto Natales no inverno é um espetáculo indescritível
O pôr do Sol de Puerto Natales no inverno é um espetáculo indescritível

Me custou dois dias para chegar a Punta Arenas. Pedalei muito para evitar acampar exposto às nevascas que estavam assolando a região. Por sorte, perto dos 100km encontrei uma estância, pedi permissão para montar a barraca, e me ofereceram um quarto com cama, calefação, chuveiro quente e janta. Hotel cinco estrelas, ao preço da hospitalidade do povo da patagônia. No dia seguinte saí bem cedo, para ter tempo de chegar no destino sem passar das cinco da tarde, já que nessa hora a umidade da pista começa a congelar e deixar a pedalada perigosa. Inclusive nesse mesmo dia um caminhão deslizou na pista, mas conseguiu recuperar o controle antes de me pôr em risco.

A estrada estava completamente congelada, mas inegavelmente linda. Em Punta Arenas eu fui recebido por bastante gente, e comecei a notar diferenças culturais mais fortes, já que Brasil e Argentina, apesar de diferentes ainda tem muito em comum. Tenho que confessar que não estar psicologicamente pronto para a quantidade de festa que o pessoal de lá faz. Não que eu não goste, mas depois da universidade eu não tinha passado por nada parecido hahaha.

O desafio foi acostumar a pedalar na neve e nas poucas horas de luz do dia e em segurança

Ao sair da cidade (depois de perder o barco e ter de ficar mais um dia), era hora de tornar realidade outro sonho: atravessar o Estreito de Magalhães, o qual só conhecia dos livros da escola. O barco balançava mais do que o esperado, com uma taxa, que só mais tarde descobri que poderia ser “evitada” cruzando no outro ponto de travessia. Porém, o custo de deslocamento não valeria a pena.

Além disso, atravessar por essa ponta do Estreito me proporcionou conhecer um lado muito mais selvagem da Terra do Fogo, acampar, ver mais animais selvagens em seu habitat, e ficar surpreso com os “refúgios” para viajantes – creio eu – que existem na parte chilena.

Seguindo para a parte Argentina cheguei em Rio Grande, onde fiquei quase duas semanas, conheci muita gente legal, enfrentei mais de 100km/h de vento na cidade, e segui. No caminho, havia planejado acampar, mas acabei encontrando uma estancia e resolvi pedir para montar lá minha barraca. Mal sabia que aquele era o “warmshower” mais antigo da história, mesmo sem nunca ter usado o aplicativo. O simpático senhor, dono de tudo, me levou a uma casinha que havia construído para receber cicloviajantes. Lá havia um livro, com mensagens de pessoas que haviam passado por lá ao longo dos anos, até que orgulhoso, abre em uma página com um recorte de jornal colado, no qual havia uma foto, datada de 1951, que mostrava ele, então com três anos de idade, seu pai, e dois jovens que de acordo com seu Adrian, eram ingleses fazendo uma volta ao mundo em bicicleta, numa época em que não existiam sequer estradas para atravessar a cordilheira. É, e eu achando que minha viagem estava sendo divertida.

Assim chego à Tolhuin, uma cidadezinha, onde se localiza o famoso Lago Fagnano e a Padaria La Union, provavelmente o maior ponto de encontro de cicloturistas do sul do continente. Como passei por lá no inverno, pode-se imaginar que não haviam muitas pessoas hospedadas. Nessa oportunidade havia eu e um japonês que estava viajando há quatro anos.

Panaderia La union – La casa de la amistad (e dos ciclistas)

Ah, quando estava em Punta Arenas conheci um casal de australianos de bike, e Adam fez a gentileza de enviar a localização das cabanas abandonadas entre Tolhuin e Ushuaia. Então, fui direto pra lá quando saí da Padaria. O detalhe é: houve uma nevasca na noite anterior, e quando cheguei no lugar indicado pelo GPS, estava com neve até a altura dos joelhos. As ditas cabanas são parte de uma hospedaria à beirado Lago Escondido, com nove casas e um centro bem grande, abandonados por brigas judiciais há vários anos, que hoje servem de refúgio para mochileiros, e especialmente, cicloviajantes do mundo todo, que inclusive, as mantém habitáveis.

Com toda a ansiedade do mundo, saí no dia seguinte rumo ao fim do mundo. Estradas cheias de neve, frio intenso (creio que algo próximo dos -10 º C), o suor congelando na barba, com o corpo aquecendo ao pedalar perto das montanhas no caminho.

Digo no caminho, porque diferente de outros lugares, para chegar a Ushuaia você passa literalmente ao lado das montanhas, já que o Monte Olivia, por exemplo, inicia junto com o fim do guarda-corpo da pista, e que inclusive estava com uma cascata de gelo quando estive por lá. Tenho que admitir que vi muitos lugares bonitos nesse trajeto, mas nada vai se comparar à esse dia. Montanhas, lagos, animais selvagens, gelo, vento, vales, não sei explicar. Até que ao longe vi um posto de gasolina, que seria minha última parada. Pedi um café, comi algumas empanadas, lavei o rosto, e voltei pra bicicleta.

Algumas subidas mais fortes que pareciam não ter fim, pneu resvalado pela lateral da pista e muitos carros indo e voltando de estações de esqui, quando perto das quatro da tarde vejo no horizonte “O portal”. Eu havia conseguido. Ainda não acreditava, mas estava lá, no fim do mundo. Ao contrário das minhas próprias expectativas eu estava na cidade mais ao sul que podia chegar. Havia vencido o frio extremo, o isolamento, e crescido como pessoa de uma maneira que não me conhecia mais. A viagem faz dessas te destrói, mas com a mesma força te reconstrói. E tu não é mais o mesmo, tu é um cidadão do mundo. Mesmo com os olhos marejados é hora de descansar, planejar. E agora? Agora a única opção é ir pro norte.

A primeira parte do sonho sulamericano estava completo, agora norte é a única opção.

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Quer ouvir um pouco mais sobre o Estradas Cruzadas ouça p Podcast do Extremos aqui no portal Cicloaventureiro.

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