Início Extremos das Américas # 4 Coldfoot – Juli Hirata

# 4 Coldfoot – Juli Hirata

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#4 Coldfoot  Os caminhoneiros

15.05.2016

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Por Juli Hirata from Portal

Depois de cinco dias dormindo no gelo, na beira da estrada, finalmente cheguei em Coldfoot. Nessa época do ano, o único ponto de apoio aberto na Dalton Highway.

Um pouco antes de Coldfoot muitas pegadas na neve.

Comecei a ver o solo e a neve começou a ficar ficar mais espaçada. Eu sabia que estava chegando em Coldfoot.

Coldfoot é uma das poucas cidades da região ártica que você pode chegar por uma estrada e a parada de caminhão mais ao norte do planeta. O censo de 2000 indicou que a população da “cidade” é de 13 habitantes e em 2010, 10 habitantes. Todos ou quase todos trabalham no “camp”, a parada de caminhões. Tudo lá é dificil, o chuveiro, eletricidade e aquecimento são a óleo diesel. Um gerador imenso e barulhento alimenta o restaurante, um hotel (caríssimo! a diária na baixa temporada é 280 dólares), o alojamento dos funcionários e uma pequena casa durante 24 horas do dia. Tem um posto de combustivel com todos os tipos de combustivel que você possa imaginar (incluindo combustivel de avião e barcos). A internet é via satélite e custa 7 dólares a hora e nem sempre funciona muito bem. Não tem sinal de celular e os telefones públicos nem sempre estão funcionando.

O cemitério de Coldfoot tem somente duas lápides remanescentes mas nenhuma está identificada. Dizem que por isso os mortos levantam durante as longas noites de inverno e deixam muitas pegadas na neve.

Coldfoot já foi uma cidade importante em dois ciclos: o do ouro e o da construção do oleoduto chegando a ter até 1000 pessoas  vivendo ali. Hoje é uma das centenas de cidades fantasmas dos Estados Unidos.

Aqui, não sei se é uma norma do estado do Alasca ou se é dos Estados Unidos, o motorista de caminhão não pode dirigir mais do que 14 horas seguidas, então não é possivel ir até Deadhorse/Prudhoe Bay e voltar sem fazer uma parada de descanso. Normalmente essa parada é em Colfoot.

Foi ali meu ponto de civilidade! Depois de 5 dias sem banho e escovando os dentes com neve derretida (e tinha que ser rápido se não a água congelava de novo), finalmente eu iria me sentir limpa de novo!

Ao chegar, sondei a área. Os caminhões não paravam de chegar no páteo enlameado.

 Na temporada é possível obter informações sobre Kanuti National Wildlife Refuge no centro de informações de Coldfoot.

Entrei no restaurante e senti o alívio do ar quente, todos olharam para mim, eu parecia uma astronauta com tanta roupa refletiva e colorida. Eu devia estar com uma cara horrível também, eu estava com muito frio, com dor no joelho e não estava sentindo minhas mãos há dois dias.

Sem sentir as mãos eu parecia uma criança que estava aprendendo a pegar as coisas, demorei um tanto para puxar a cadeira pra sentar e ainda com a luva, tentei pegar duas vezes o cardápio quando finalmente o garçom empurrou o papel pra perto de mim.

Eu era a única mulher em um recinto com uns 30 homens. Logo, alguns começaram a puxar papo. Eu ainda estava entretida com a sensação do ar aquecido quando as primeiras perguntas surgiram:

“Você está vindo de Deadhorse?” perguntou um

-Sim…

“Pra onde você está indo?” perguntou o outro

-Fairbanks..

“Você está de moto?”

-Não…. de bike…

 Todos me olharam.

 “Então você é a louca que está pedalando no gelo???”

“Estamos falando de você pelo rádio ha dias!”

“Te vi na nevasca, perto da pump station 2!”

 -Sim… não dava pra ver muita coisa por lá, não é? – eles estavam falando quase todos ao mesmo tempo e eu não conseguia responder as “perguntas”.

 “Passei por você em Chandalar!”

“Te vi na milha x!”

“Vi sua barraca na milha Y!”

 Quase todos tinham me visto na estrada. Soube então que os caminhões tem rádios comunicadores com alcance de 1 milha. Eles se comunicam o tempo inteiro. Desde que eu havia saído de Deadhorse eles se comunicavam sobre a minha localização.

 Por isso eles diminuíam tanto ao passar por mim!

Dos caminhoneiros, ganhei muitos litros de água líquida, meus Icetrekkers, muitos joinhas, acenos, sorrisos e “are you ok?” (“você está bem?”) de dentro das boléias. No restaurante, me senti cercada de amigos que eu já conhecia…

A verdade é que a Dalton Highway é um estrada dificil pra todo mundo. Se comunicar e cuidar do outro é mais do que solidariedade, é sobrevivência. Todo mundo já precisou, precisa ou vai precisar de ajuda ali e comigo não foi diferente.

Antes de começar a pedalada, eu havia conversado com o Cláudio, brasileiro e motorista que trabalhou fazendo escolta na Dalton durante muitos anos. Ele havia me dito dessa irmandade na estrada.

 

Pela primeira vez em 5 dias eu estava vendo solo sem gelo. Finalmente eu ia conseguir acampar sobre solo firme e não na neve! Talvez até conseguisse dormir mais de 5 horas aquela noite!

Finalmente acampando em solo sem gelo! Feliz da vida com o sol, a boa noite de sono e um banho quente!

 Fiquei empolgada com todas as possibilidades!!! O que eu ia fazer primeiro?!

 Me organizei. Foco. Calma… uma necessidade de cada vez… o que é mais urgente? Primeiro comer e me aquecer enquanto comia. Tomei uma sopa quente. Ao engolir o líquido notei que a sala ficou com as cores mais vívidas. Senti que meu rosto estava aquecendo. Tirei as luvas e toquei meu rosto, olhei pras minhas mãos e alguns dedos estavam roxeados. Minhas unhas estavam levemente azuladas.

 Toquei um piano imaginário na mesa e vi que não estava sentindo a ponta dos meus dedos. Putz, será que volta ao normal?

Lembrei da minha mãe. Pra ela a primeira etapa de cura para qualquer coisa começa com um banho.
Tá com cólica: toma um banho para relaxar.
Dor de cabeça: toma um banho que melhora.
Cansaço: toma um banho que desperta!
Tristeza: toma um banho que anima.
Frio: toma um banho que esquenta!

Ouvi a voz dela e fui tomar um banho. U$10.00!!! Ok, hoje vale a pena! Será meu luxo!

 Quando a água quente caiu na minha cabeça levei um choque. Uma sensação de humanidade

me cobriu.
“Por Darwin! Como isso é bom!” – falei em voz alta.

 Na volta do banho vi umas cabanas entre as árvores. Achei aquilo legal e fui ver. Dentro de cada uma tinha duas camas, uma mesa e uma cadeira. Vi que as cabanas não tinham tranca e empurrei uma das portas, só pra ver e… abriu!

Hora de carregar as baterias. Usando o carregador solar.

 Olhei ao redor com a intenção de perguntar sobre as cabanas. Já era quase meia noite. Não havia nenhum carro, pessoa ou animal por perto. Deu um friozinho na barriga mas quer saber?

Joguei minhas coisas dentro de uma das cabanas como se eu estivesse fugindo de alguma coisa.

 Fechei a porta rápido e em silencio joguei o saco de dormir e o saco bivaque sobre uma das camas e bem quietinha, dormi.

 Dormi 14 horas seguidas.

 No dia seguinte uma espécie de zelador, muito bravo me despejou da cabana. Pedi desculpas sorrindo, eu estava tão feliz que me senti transbordando uma espécie de energia quente. Ele disse que eu não podia dormir ali e que as cabanas estavam fechadas ainda. “São para os clientes do verão!!!”

 orri de novo pensando – tô quase me sentindo no verão. – e sai, feliz e descansada. Olhei no relógio e a temperatura era 12oC! Estava mesmo quase verão!

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