Início Extremos das Américas # 2 – Extremos das Américas por Juli Hirata Boi almiscarado

# 2 – Extremos das Américas por Juli Hirata Boi almiscarado

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Boi almiscarado

 Musk Ox (Boi-almiscarado)

Juli Hirata 10.05.2016 para Cicloaventureiro

Depois da loucura de subidas da Atigun Pass e do susto com “a mão” dormi pela primeira vez com temperaturas acima de -11oC.

Com a temperatura subindo o gelo na estrada abre espaços não escorregadios para pedalar.

Foi impressionante como a temperatura se tornou uma condição ambiental tão importante pra mim.

De manhã, com o relógio ao alcance da vista, ficava esperando a temperatura atingir a deliciosa temperatura de -4oC para colocar os braços pra fora do meu casulo (vulgo saco de dormir). Normalmente isso acontecia por volta das 7:30 da manhã. Até essa hora, um urso poderia até tentar me atacar mas eu ia continuar sendo uma imensa minhoca amarela muito imóvel dentro da barraca.

Minhoca amarela já com o braço pra fora! (Denali Park)

A quantidade de animais que se vê na tundra é incrível! Consegui ver uma raposa do ártico (Vulpes lagopus), tão branca que só foi possível vê-la por que ela se moveu; uma raposa vermelha (Vulpes vulpes) correndo apressada e muito certa da direção que estava correndo; um alce (Alces alces) que se assustou comigo (e me assustou também) e saiu correndo pra longe da estrada; muitos indivíduos de uma espécie conhecida como willow ptarmigan (Lagopus sp.) e suas infindáveis trilhas na neve e uma imponente e tranquila coruja da neve (Nyctea scandiaca).

 “Por do sol” – nessa foto era quase 10:30 da noite e quase hora de parar de pedalar…

 A linha escura cortando a neve. Achei que seria muito fácil ver qualquer animal que se aproximasse mas não… a maioria é incrivelmente branca e só é possível vê-los quando eles se movem.

Em nenhum dos casos consegui tirar fotos. Tirar uma foto significa: parar a bike, tirar uma das luvas, pegar a máquina, colocar as baterias pra daí então, tirar a foto. Por causa do frio as baterias acabam muito rápido e como eu não sabia quanto tempo mais ficaria sem encontrar uma tomada, toda vez que tirava uma foto ou fazia uma filmagem, tirava as baterias e as colocava nos bolsos e as mantinha próximas ao meu corpo. Eu não teria muitas chances com animais que se movessem mais rápido que uma preguiça.

 Como vocês devem saber, aqui não existem preguiças e os predadores correm bastante.

Bom, tá ai organismos vivos que eu consegui fotografar.

Como as chances de uma boa foto, nessas condições, com os animais surgindo de surpresa na estrada, eram bem remotas, aceitei que eu dificilmente teria fotos de bichos. Mas mesmo assim, eu continuava pedalando olhando para tudo como se um animal estivesse para sair dali. Quase sempre era um galho com um formato estranho, uma folha se movendo com o vento ou uma placa caida e coberta de sujeira.

Em uma reta de quase 30 kms vi um monte de “feno” no meio da neve. Achei estranho o feno não estar coberto de gelo e tudo ao redor sim mas como o imenso galho algumas milhas antes, deveria ser somente um monte de feno.

Quando me aproximei do monte de feno, vi que tinha um focinho no meio do feno! e um chifre! Não acredito!!! Era um Boi almiscarado enorme!!! Ele parecia estar dormindo. Parei imediatamente a uns 50 metros dele. Peguei a câmera, coloquei a bateria (com luvas isso demora um pouco mais do que parece) e tirei algumas fotos. Ele me olhou, ainda deitado e levantou o focinho pra sentir meu cheiro. Eu estava contra o vento então ele levantou e muito lentamente começou a andar na minha direção. Parecia um trator! Ele caminhava em 0,5m de neve como se estivesse caminhando na grama.

Era hora de ir de novo…

 No momento que o Musk Ox levantou tive a noção do seu tamanho, era imenso! Ele estava deitado em pelo menos 0,5m de neve.

Dias mais tarde li que Bois-almiscarados andam em grandes grupos e raramente se encontra indivíduos sozinhos. Normalmente machos em disputa social ou indivíduos muito velhos que são afastados do grupo para morrer. É muito custoso para o grupo proteger um indivíduo mais velho em um ambiente tão inóspito.

Esse indivíduo especificamente é um animal que está afastado do grupo há 1 ano e meio e já tinha cerca de 18 anos (a expectativa de vida desses animais é de cerca de 20 anos), foi expulso do grupo para morrer sozinho. Eu o apelidei de Teimoso…

Um “perfil” do Teimoso, o charmoso velhinho que me deixou finalmente fotografar um animal!

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